O Império Romano, que floresceu e dominou vastas regiões por séculos, desvaneceu-se há muito tempo. Contudo, o seu legado é tão profundo que continua a influenciar o nosso quotidiano, especialmente através da língua que falamos. O Português, tal como o Castelhano, o Italiano, o Francês e o Romeno, é uma língua românica, ou seja, é um descendente direto do Latim Vulgar (o Latim falado pelo povo, soldados e comerciantes romanos). Compreender a Roma Antiga é, portanto, compreender a própria essência da Língua Portuguesa.

1. A Invasão Romana e o Nascimento do Galego-Português

 

A presença romana na Península Ibérica, que se estendeu por quase seis séculos (a partir do século III a.C.), foi o fator determinante para a criação do Português.

  • A Romanização: Ao chegarem, os romanos impuseram a sua administração, leis e, crucialmente, a sua língua: o Latim. Aos poucos, as línguas nativas da Península (como o Tartesso ou o Celta) foram sendo substituídas pelo Latim.

  • O Latim Vulgar: Não era o Latim Clássico dos filósofos como Cícero, mas sim uma versão simplificada e cheia de variações regionais. É deste Latim falado que se originou o Galego-Português, a fase inicial e comum das línguas faladas na região da Galiza e de Portugal.

  • A “Fronteira”: A separação gradual entre o Galego e o Português só se consolidou após a fundação do Reino de Portugal, no século XII.

2. O Vocabulário Essencialmente Latino

 

A maior herança romana reside no léxico (o vocabulário) do Português. Estima-se que mais de 90% das palavras de uso comum derivam diretamente do Latim.

Palavra em Português Origem no Latim Vulgar (Exemplo) Significado
Pai Patre Pai
Mãe Matre Mãe
Fazer Facere Fazer
Água Aqua Água
Noite Nocte Noite

O Fenómeno da Queda do ‘L’ e ‘N’ Intervocálicos: Muitas palavras sofreram alterações fonéticas típicas. Por exemplo, a palavra latina para “dor” era dolore (origem de ‘dor’); o ‘L’ ou o ‘N’ intervocálicos caíam, levando a transformações como:

  • LUNA (lua) $\rightarrow$ LUA

  • CORONA (coroa) $\rightarrow$ COROA

3. A Estrutura Gramatical e a Sintaxe Romana

 

Não é apenas o vocabulário. A forma como construímos frases e conjugamos verbos é, em grande parte, uma continuidade da gramática latina, embora simplificada:

  • Verbos: O sistema de conjugação do Português (terminações em -ar, -er, -ir) é uma simplificação do sistema de quatro conjugações do Latim. Os nossos tempos verbais (passado, presente, futuro) têm raízes latinas claras.

  • Substantivos: Embora o Português tenha perdido os casos gramaticais (Nominativo, Acusativo, Genitivo, etc.) que o Latim usava para indicar a função da palavra na frase, manteve o sistema de género (masculino/feminino) e número (singular/plural).

  • Sintaxe: A ordem básica da frase no Português (Sujeito-Verbo-Objeto) tem uma forte influência da sintaxe latina, embora esta fosse muito mais flexível.

4. A Influência no Direito e na Cultura

 

O legado romano manifesta-se também fora da gramática:

  • O Direito: O sistema jurídico português e, de facto, grande parte do Direito europeu, é baseado no Direito Romano. Palavras como lei, justiça, tribunal e o conceito de cidadania derivam diretamente da estrutura legal romana.

  • O Calendário: Os meses do nosso ano, de Janeiro (Ianuarius) a Dezembro (December), mantêm os nomes latinos, alguns em homenagem a deuses (Março – Marte) ou a números (Setembro – Sete).

Conclusão

 

Quando um falante de Português diz “Eu vou fazer uma nova lei“, está a usar uma frase que é quase integralmente composta por descendentes diretos de palavras latinas (Ego vado facere una nova lege).