Ele caminhava sempre ao entardecer, quando as sombras se alongavam e o mundo parecia suspenso entre dois silêncios. Ninguém sabia o seu nome, nem de onde vinha, mas todos reconheciam a sua figura magra, envolta num casaco gasto que parecia ter atravessado séculos.
Diziam que falava com as pedras, que escutava as árvores, que sabia quando a chuva ia cair antes mesmo de as nuvens se juntarem. Outros afirmavam que era apenas um homem cansado, fugido de guerras antigas ou de memórias que não queria carregar.
Certo dia, uma criança perguntou-lhe porque caminhava sempre sozinho. Ele sorriu — um sorriso breve, quase esquecido — e respondeu:
“Porque há caminhos que só se fazem quando ninguém nos vê.”
A criança não entendeu, mas guardou a frase como quem guarda uma semente. Anos depois, quando também ela caminhava entre sombras, percebeu que aquele homem não fugia: procurava. Procurava o lugar onde a luz e a escuridão se encontram sem se destruírem.
E nesse lugar, dizem, ele finalmente descansou.
